Só consegui me lembrar daqueles tempos cinzentos, em idos do final do inverno passado, quando o frio já tinha ido embora, mas a chuva ainda não tinha chegado, e a fumaça me envolvia por todos os lados, compimindo e sufocando. Hoje não, ainda estamos em maio e o vento leva a fumaça pra longe de mim. Ainda temos vento e vemos o azul do céu. Ainda há esperança de que, desta vez, o mau tempo não venha.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Sobre o CPA em sextas-feiras enforcadas ou Aqueles tempos que eu não quero que voltem
Só consegui me lembrar daqueles tempos cinzentos, em idos do final do inverno passado, quando o frio já tinha ido embora, mas a chuva ainda não tinha chegado, e a fumaça me envolvia por todos os lados, compimindo e sufocando. Hoje não, ainda estamos em maio e o vento leva a fumaça pra longe de mim. Ainda temos vento e vemos o azul do céu. Ainda há esperança de que, desta vez, o mau tempo não venha.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Ensaios
Às vezes sinto que passei a vida toda ensaiando para um dia começar a viver. E de ensaio em ensaio, fui deslizando pela vida, sem nunca ter sentido vivê-la de verdade. Nada nunca parece muito bom, muito acabado, nem muito inteiro, e os momentos de plenitude se esvaem como fumaça.
domingo, 27 de abril de 2008
O silêncio
Acordou e espalmou a mão esquerda. Lentamente abriu os olhos e olhou. Viu que todos os dedos continuavam lá, e sem membrana alguma entre eles. Sentiu um alívio intenso, coberto pela ansiedade de sempre. Ouviu a brisa fresca soprar e contemplou o ar azul marinho. Sentiu a areia fria sob seu corpo seco, e viu que tinha sede. Ergueu-se e pôs-se de pé. Esticou-se e em silêncio bocejou. Pensou em apanhar um coco e beber. Olhou para todos os lados. Hesitou. E viu que não tinha forças para tanto.
Não ainda, pensou. Com a resignação de sempre, caminhou até a borda. Contemplou ainda uma última vez aquela noite o ar, e com agilidade pulou. A água espalhou-se por quilômetros em muitos pingos, e ela mergulhou fundo quando sua cauda instantaneamente reavivou em mil escamas cinzentas. Prateadas quando há luar, ela pensou ainda, seu último pensamento humano antes de se perder na escuridão profunda das águas.
A água que era seu lar e sua prisão, da qual ela ainda iria se libertar definitivo. Ou na qual iria se encerrar sem chance de volta. Um dia.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
E agora, José?
As brigas e cisões em grupo podem ser desagradáveis e constrangedoras, mas costumam ser bastante reveladoras. Aparências frágeis são rasgadas com as pontas dos dedos, e de tal forma que a cortina não pode ser recosturada.
Melhor assim?
Não sei, quem teve a cortina rasgada que avalie. A minha, de papel translúcido, continua lá. E se depender de mim, vai continuar me resguardando o resto da vida. Não quero ser arrancada da minha cabine e exposta a toda a gente. Ainda espero conservar um pouco da diplomacia que me resta.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Para ver
É preciso estar na sintonia certa (além de um certo ponto, e antes de outro determinado) para ver as fadas. Ontem de manhã eu consegui, e anteontem quando voltava da faculdade, também. Elas estavam lá esvoaçando, pequenas e coloridas, pelo canteiro do portão do prédio. Faziam seus barulhos de zunido por causa das asas de inseto, e brincavam entre as folhas das plantas. Vi uma lilás, uma amarelinha, e uma verde. Depois, no canteiro da avenida, quase vi outra — foi muito rápido, um revoar de asas, e eu não consegui distinguir qual era.
Mas não é assim fácil topar com uma fada. Algumas coisas essenciais são necessárias para vê-las. Primeiro é preciso estar num estado de plenitude — não precisa ser reverberante, porque elas vão fazer isso por você. Segundo, é preciso estar com saudade delas; e eu estava com uma saudade tão grande, daquelas que até crescem como um balão dentro do peito. E terceiro, é preciso olhar atentamente, procurando por elas. Fadas não se deixam enxergar por quem não está interessado nelas.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
As pombas
Reconheço as pombas quando elas pousam no chão e começam a andar. Aquelas cabecinhas horrorosas avançando e recuando com violência, furando o ar como se abrissem a passagem para o resto do corpinho desajeitado, e soltando aquele grugrulejo terrível...
Que passem sempre longe de mim, as pombas. Delas, só quero as fontes e as estátuas. E minhas janelas de volta.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Sol? Pra quê?
O céu nublado e os 18°C do termômetro me deixam leve, tão mais leve que consigo respirar livremente. Quem foi que disse que o ar frio é mais pesado? Bobagem desses cientistas. Fosse mais pesado era mais fresco aqui embaixo, e ele não escapuliria para altitudes mais altas na primeira oportunidade.
Quero o ar sempre assim. Quero a leveza de não me sentir sufocada a cada inspiração, e de não sentir o peso do sol a cada passo da ladeira, avante e para cima. Quero caminhar sem apertar os olhos, enxergando com clareza, sem ver turvar aquele primeiro metro acima do asfalto.
Quero o frescor das folhas de hortelã sob um céu nublado e tão leve que quase flutua.
Sol? Só se for em cima de grama verde, com a copa de uma árvore entre nós, e sem formigas no meu pé.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Uma coisa que sempre penso
Livros são importantes. Filmes fazem minha vida mais feliz. Mas o que seria de tudo isso se eu não tivesse ar pra respirar?
O que seria da minha vida sem música?
Não seria vida, e eu não suportaria vegetar por muito tempo.
domingo, 23 de março de 2008
Sobre histórias
Uma vez, quando eu tinha 11 anos, Richard Bach me disse que o mundo era feito de ilusões, e que eu podia controlá-las e fazer o que eu quisesse. "Ninguém pode nos impedir de fazer o que queremos fazer", foram as palavras que ele usou.
Na mesma ocasião, ele me contou também que não tinha vontade de escrever nenhum outro livro depois de Fernão Capelo Gaivota. Mas as idéias não o deixavam em paz. Vinham até ele, o agarravam pelo pescoço e gritavam "Não o largarei até que me ponha no papel em palavras." E assim ele fez.
Gostei do que ele me contou porque eu sentia o mesmo. Naquela época, não tão forte como senti depois, quando comecei cinco livros e três fanfics. Nenhum deles chegou ao final, e eu não acho que um dia chegarão. Foram impulsos de adolescente.
Talvez por isso eu tenha gostado tanto do Niggle. Faz pouco mais de um mês que o conheci, e ele me fascinou. Muito resumidamente, Niggle é um artista que nunca termina seu quadro. Não resumidamente, há muito o que se dizer sobre ele. E ele é o alterego de Tolkien, dizem por aí. Acho que essas pessoas têm razão. Não há como não relacionar o quadro de Niggle com a obra (à época) inacabada de O Senhor dos Anéis.
Hoje eu não me atrevo a escrever nada comprido. Mas as palavras continuam me sacudindo e gritando no meu ouvido, exigindo serem transcritas. Então, ano passado, aderi ao blog. Comecei com um blog coletivo, aí fui para o blog em dupla, só então comecei essa viagem solitária.
A todos que porventura aqui passarem, bem vindos a bordo. O expresso vermelho já está apitando.